Constituindo-se a luta contra a ignorância em um dos postulados básicos da Instituição Maçônica, e estabelecido o pressuposto de que o combate a esse desvalor somente é possível através do estudo, cumpre indagar da possibilidade de se estabelecer limites na consecução desse objetivo.
A resposta há de ser negativa. É o que visamos demonstrar.
A Maçonaria é instituição de caráter educativo porque cultua ao aperfeiçoamento intelectual, sendo a busca da Verdade, base angular e secular de sua própria razão de ser. Jamais seria possível, portanto, qualquer limitação às indagações que se desenvolvem como modo de persecução dessa Verdade.
A Maçonaria é aberta ao progresso bem como a todo ideário filosófico, permitindo em suas fileiras, homens de todas as correntes do pensamento. A Verdade não é um conjunto de princípios definitivos, mas sim um processo de passagem de Graus inferiores para Graus superiores do conhecimento. Disso decorre que, se fosse a Ordem constituída de agrupamento de pessoas pertencentes a uma só corrente de pensamento filosófico, não teria condições de sobrevivência.
O que distingue a Ordem das demais instituições é a efetiva coexistência em seus Quadros de pluralidade de ideologias, o que permite a livre discussão das questões sociais e científicas conducentes ao progresso da Humanidade.
Ninguém deve ser excluído da Ordem ou ter seu ingresso obstado em razão de suas crenças. Contudo, nela não tem lugar aqueles que, convencidamente, entendem que só sua própria crença é legítima e suscetível de conduzir o mundo para dias melhores. A crença de cada um será relativa necessariamente, porque se assim não fosse, seria impossível a pesquisa da Verdade através do estudo, pois quem tudo sabe, nada mais precisa pesquisar.
Daí a possibilidade de convivência na Ordem de pessoas que pensam de modos diversos. Esse pré-requisito afasta da Instituição, tanto fanáticos políticos como religiosos, porque uns e outros, julgando serem suas ideologias as únicas possíveis e viáveis, pugnam pela exclusão das demais.
Nessa linha de raciocínio, somente com a liberdade absoluta de consciência pressupõe-se a existência autêntica da Ordem. Essa liberdade permite que pessoas pertencentes a diversos credos se filiem à Instituição, não podendo pretender, porém, impor a prevalência dos preceitos de suas crenças no âmbito maçônico.
A Maçonaria é uma instituição de aprendizado. É uma verdadeira escola, onde, gradativamente, seus membros devem ir aprimorando conhecimentos. A conquista de Graus inerentes ao tempo de permanência na Instituição, não exime os Irmãos de continuar a incessante e ininterrupta tarefa de pesquisar a Verdade. Não há professores: todos são discípulos em uma escola sem mestres.
O aperfeiçoamento intelectual, que se constitui na principal obrigação do iniciado, é obtido pelas suas pesquisas, pela convivência com os Irmãos, de seu próprio agir, bem como pelas experiências hauridas na vida profana.
A atuação dos maçons se caracteriza pela crítica mútua e recíproca; em alto nível. É a única forma de impedir a prevalência ideológica de uns sobre outros. Esse agir é possível através de um processo dialógico consistente em ouvir e falar, tendo todos possibilidade de espaço, tanto para uma quanto para outra atitude. As indagações sempre são mais numerosas do que as respostas.
Na Instituição deve haver, por parte dos Irmãos, intercâmbio de conhecimentos, ninguém pretendendo dominar ninguém.
O sectarismo político, religioso e racial é incompatível com a universalidade do espírito maçônico. Tal princípio põe a Instituição a salvo do dogmatismo.
Tendo por princípio a ilimitada liberdade de consciência e tendo por divisa a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, não pode a Ordem conviver com princípios dogmáticos insuscetíveis da necessária problematização.
O dogma, exatamente porque não pode ser colocado em cheque, é inquestionável. Por isso aloja-se em posição antagônica à Liberdade. Parte o pensamento dogmático de princípios assentes e vinculantes para o ulterior desencadeamento de determinada argumentação. Dogma, etimologicamente, deriva de "docere", ensinar. Em outras palavras: o que é ensinado, porque tido como verdadeiro.
Admitindo-se como passível de crítica, de contestação e de problematização tudo o que determina dogmática coloca como princípio imutável, afasta-se o dogma. A impossibilidade de questionamento de seus preceitos se constituiria irremissível cerceio à liberdade de pensamento. Não se compadece a Ordem Maçônica com essa modalidade de restrição.
Através do questionamento de princípios dogmáticos, tidos e havidos como evidentes, a constatação que se faz é no sentido de que ditos princípios, aparentemente ensejadores de determinada consequência, podem ter soluções outras, inicialmente não previstas.
Essa problematização decorre de uma postura de dúvida. Dúvida que há de ser entendida como incerteza da evidência, já que nem tudo está explicitamente ao alcance do conhecimento. Inevidência é, portanto, transformação de determinado princípio em problema, objetivando solução diversa da consequência decorrente do dito princípio.
Tal enunciação não pretende exaltar ou cultuar o ceticismo, que se consubstancia na dúvida radical da possibilidade de um conhecimento verdadeiro, muito pelo contrário.
A dúvida decorrente da problematização de princípios havidos como imutáveis a que nos referimos, é a denominada dúvida metódica, no sentido cartesiano do termo. Traduz-se ela em caminho para a realidade. E tem por fim, a Certeza. Essa dúvida (oscilação entre duas crenças) possui caráter provisório, já que a suspensão dos juízos, ao contrário, do que ocorre no Ceticismo, não é definitiva e visa, tão somente, alcançar a Verdade. Tal postura harmoniza-se, integralmente, com os princípios maçônicos.
Vê-se, portanto, que a Dúvida Metódica difere do Ceticismo na medida em que este reflete o dogma da descrença, da impossibilidade do conhecimento verdadeiro. Quem descrê, já não duvida.
O dogma da descrença se desdobra em outro, qual seja, o do ateísmo. O ateu, ao negar a existência da divindade, não permite qualquer questionamento em sentido contrário a esse juízo assertórico, assumindo, assim, posição sectária, e, consequentemente, contrária aos princípios da Instituição.
Em contraposição ao Ateísmo Dogmático, situa-se o Agnosticismo, atitude que não fecha questão sobre a existência de Deus, por reconhecer sua transcendência ao conhecimento humano, delimitado, basicamente, ao domínio da experiência. O Agnosticismo não tem caráter dogmático, porquanto não assume a asserção dogmática da existência do Ente Supremo, nem tampouco a de sua inexistência. A Dúvida Metódica e o Agnosticismo encontram, destarte, guarida e aceitação na Ordem, porque são posturas não dogmáticas e voltadas para a pesquisa da Verdade.
Do que foi dito, não decorre, contudo, que só tenham lugar na Maçonaria os Agnósticos. O que se pretende esclarecer, é que nela também devem eles ter espaço, não sendo cabível que se lhes façam qualquer restrição.
Da mesma forma, tem acolhida na Ordem os Deístas e Teístas tolerantes, pertencentes ou não a credos religiosos existentes, desde que aceitem a discussão livre sobre todos os temas.
Dogmáticos sectários não podem ter lugar na Maçonaria, pois a virtude da Tolerância é inafastável e obrigatória, constituindo-se em prática, oposta ao fanatismo, em condição prévia para que ingresse na Sociedade de "Pedreiros-Livres". |