Florianópolis/Santa Catarina -

 

 

* Por Francisco Feitosa

“Seja você a transformação que você quer no mundo!”

(Mahatma Ghandi)

A Maçonaria é o reflexo do que acontece no mundo! Não poderia ser diferente, pois é dele que extraímos as pedras para serem lapidadas e esquadrejadas para a Grande Construção. É do mundo que escolhemos pessoas livres e de bons costumes para a edificação da Obra do Grande Arquiteto do Universo.

Portanto, todo esse processo de convulsão por que passa o planeta e a humanidade, consequentemente, reflete-se, de certa forma, dentro dos Templos Maçônicos. O ideal seria que não acontecesse, mas, quando falamos que, do mundo, “escolhemos” aqueles que chamaremos de Irmão, talvez, seja onde, em parte, resida o problema.

Escolher é selecionar entre outros; é manifestar preferência. Daí, deparamos com a responsabilidade do Padrinho. Esse deverá ter consciência da Ordem de que participa; de suas responsabilidades como Iniciado Maçom; do trabalho que dele se espera na Maçonaria junto à sociedade; principalmente, de que não entramos para a Ordem com o objetivo de tirar vantagens pessoais, e sim de oferecer ao mundo a oportunidade de dias melhores, nos transformando e, consequentemente, transformando o mundo.

Desde a fase Operativa, a Maçonaria, sempre, teve critérios para admissão de seus membros. Nos primórdios, o processo de Iniciação não existia, sendo os pedreiros-livres admitidos através do processo de “recepção”. Embora fosse uma cerimônia formal, as informações sobre o caráter do trabalhador da pedra eram fundamentais para sua recepção, não bastando, tão somente, suas habilidades com o maço e o cinzel.

Na segunda metade do século XVI e início do século XVII, momento preponderante de alteração estrutural da Maçonaria, nossa Ordem sofria perseguições acirradas do clero, motivando o rei da França, Francisco I, a revogar os privilégios dos Franco-Maçons, abolindo guildas, cantarias e demais fraternidades. Na Inglaterra, a rainha Isabel renovava uma ordenação de 1425, que proibia qualquer assembleia ilegal, sob pena de ser considerada rebelião. Com isso, a Maçonaria foi perdendo seu objetivo principal e transformando-se em uma associação de auxílio mútuo, o que motivou a entrada dos chamados “Maçons Aceitos”.

O Grande Incêndio de Londres, em 1666, que destruiu a cidade, foi um divisor de águas na época. Foram os pedreiros livres, perseguidos pela Igreja e pelos governantes, que tiveram a responsabilidade de reconstruir as 40 mil casas e 83 igrejas, sob a direção do arquiteto Cristopher Wren, sendo sua obra principal a Igreja de São Paulo, em cujo adro se desenvolveria e estabeleceria, em 1691, uma Loja de fundamental importância para a Maçonaria moderna, a Loja de São Paulo (assim chamada, em alusão à Igreja de São Paulo), ou a Loja da Taberna “O Ganso e a Grelha”, que, mais tarde, uniu-se a outras três, dando origem à Grande Loja de Londres, início do sistema obediencial maçônico.

Formada pelos Maçons de Ofício, que reconstruíram Londres, a Loja de São Paulo, até então, não permitia a admissão em seus Quadros dos chamados “Aceitos”, mas, com sua recepção pelas demais Lojas, a partir de 1703, rendeu-se à nova formatação maçônica. Embora saibamos que esse processo se iniciou em 1600, em Edimburgo, na Escócia, com a entrada do Maçom Aceito John Boswell – o Lorde de Aushunleck - na Loja Saint-Mary’s Chapell.

Nessa oportunidade, o movimento rosacruciano, na Europa, e a chegada dos chamados ritos alquímicos deram uma nova roupagem à Maçonaria. Antes Operativa, formada, exclusivamente, por construtores, passava para o que ficou conhecido por Maçonaria Especulativa (em particular, considero um termo um tanto pejorativo), com a entrada dos Maçons Aceitos e, com eles, vários intelectuais da época, ligados, principalmente, a diversos segmentos místicos e esotéricos, trazendo um grande avanço em conhecimentos das civilizações antigas e de várias culturas, como a Caballah, o Hermetismo, o Rosacrucionismo, a Alquimia, a Numerologia, a Astrologia, dentre outras.

O processo de admissão à Ordem passava da simples “Recepção” para a cerimônia ritualística de “Iniciação”, com ingredientes próprios, levando os candidatos a mergulharem no seu íntimo, renascendo como Iniciados. O primeiro templo maçônico, o “Freemason’s Hall”, construído em 1776, na Inglaterra, foi baseado no Parlamento Inglês e não tinha cunho místico ou espiritual. Com o passar do tempo, os templos foram redecorados com uma simbologia de profundos significados, ligando nossa Ordem às culturas da Antiguidade, levando o Maçom a buscar o arquétipo do símbolo e, nessa busca, encontrar seu Mestre, seu Deus Interno.

Nesse século, o Iluminismo trouxe, de fato, a luz ao mundo, originando os movimentos libertários e culminando com a Queda da Bastilha. Todos os demais feudos, um a um, caíram na virada do Século da Luz para o posterior, e seus efeitos adentraram a América, trazendo a Maçonaria ao Brasil, através das Sociedades Literárias.

Não se faz necessário narrar aqui os feitos da Maçonaria Brasileira, já bem conhecidos por todos. Esse breve e superficial passeio pela história da Maçonaria visa, tão somente, a conscientizar a quem nos honra, lendo essas humildes e pretensiosas linhas, de que a Maçonaria nunca foi e tampouco será um clubinho de serviços, como muitos a querem transformar, utilizando-se de seu ingresso para atender a interesses pessoais, ostentar títulos e manutenir vaidades.

Somos uma Escola de Iniciação, e a etimologia deste termo é “a ação ou resultado de Iniciar”, ou seja, de iniciar uma ação interna, permitindo-se uma transformação moral e superando os maus e velhos hábitos, para que haja a verdadeira metástase, a eucaristia, unindo a personalidade (matéria) à individualidade (espírito).

No passado, os Maçons Operativos eram chamados a construir templos de pedra. Hoje, a Obra é bem outra! O homem é a Obra mais perfeita já edificada na face da Terra. Propositalmente, seu Criador o construiu incompleto, a fim de que o próprio homem, através da Iniciação, de uma ação interna, dê continuidade a sua Obra.

Sem essa consciência dos propósitos de uma verdadeira Escola de Iniciação, continuaremos a apadrinhar pessoas descomprometidas com os objetivos de nossa Ordem, transformando a Grande Obra do G.·.A.·.D.·.U.·. em um amontoado de pedras imperfeitas e eternamente brutas, mal-empilhadas, propensas a desmoronar, pois a argamassa utilizada, nesse caso, é composta pela vaidade, pelo orgulho, pelos interesses pessoais e pela falta de consciência, portanto, jamais dará liga. O mundo está em convulsão, mas, se nos comprometermos a pensar e agir como Iniciados, transformando-nos em Templos Vivos e não nos comportando como profanos, pedras mortas, não correremos o risco de ouvir, novamente, da boca do Mestre que, “(...) desses, não sobrará pedra sobre pedra”.

De posse da trolha de nossa consciência, continuemos, denodadamente, nesse evolutivo trabalho de conclusão de nossa eterna construção!

Fiquemos por aqui!

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* Francisco Feitosa
Criado e mantido por: Juarez de Oliveira Castro